quarta-feira, 2 de maio de 2012

Rua Augusta


O moinho das horas se desenrola
sobre estas almas que já não sabem, ingênuas,
se é uma canção o que desatam os pássaros
ou se são gritos lamentando a mais nova manhã.

É a volta para casa, algo como um regresso perdido
no semblante desses que passam e refletem
– quase que num gesto solene – através
de seus olhos a cor mais vigorosa da manhã: cinza.

Trazem no peito o odor insidioso das camas
tristes que alugaram. Cheiro não de suor ou de
qualquer colônia mas da agrura de centenas
de mãos e olhos que vagam ferozmente e que pagam
tudo por um sorriso brutal, confusão estridente
de riso e violência, que só pode ser agora.

Chegam em casa, bebem de mais um outro cigarro,
insones, já não tão saciados. A agressividade com
que vomitam e desejam, profundamente, mais um
trago dessa fumaça augusta, vago erro latino e cristalino
a por os pés no centro dessa metrópole selvagem.
Sonhamos acordados mais e mais catástrofes...
e não sem direito:
há uma gota de sangue em cada esquina.

terça-feira, 1 de maio de 2012


São pequenos trabalhos,
que ultrapassam em muito o
número 12. Aparecem assim,
durante estas horas em que
vivemos menos, no estio do salário,
dos prazos e do banco de horas.

Há pouco, uma mudança de mesas
exigiu de músculos já moribundos
o supino tão-quase divino; há ainda menos,
dedos roliços perdiam-se entre a barra
de endereços, o gmail e o trava línguas
da senha -- mudaram o seu computador,
d. Joana, nós entendemos: como não
entender?

Mãe de dois filhos já mortos, assunto
obscuro e ilícito, a voz rouca, anos
e mais anos de cigarro e limpeza:
como não entender, d. Joana? 

Por eso fue que me viste tan tranquilo,
caminar serenamente bajo un cielo más que azul...

Há que perdoar, a nós, com nossos livros,
e estas fotos onde tem de achar Mário de Andrade
entre amigos, todas estas besteiras de quem
aqui, neste Arquivo, pertence a História.

A tua, D. Joana, infelizmente passa mal. Tocando
de leve um poema ruim, disfarçado de trabalho; enquanto
limpa, eternamente e com a imponência mítica de uma lavadeira,
os trapos do amanhã, de onde brotarão explicações,
teorias, quadros analíticos e trajetórias: mas nunca os traços
dos teus dedos, ou a aspereza da tua voz.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Há uma vida, certamente, uma vida.
Um mecanismo um tanto indiferente,
outro tanto tenro. Por onde sonhávamos
diferente há pouco, muito pouco, tempo, e vestíamos
branco no ano novo, e cantávamos, sim, juntos,
quando bebíamos. Conjurávamos, com pouca coisa,
o infinito naquela escada nossa, onde trançávamos
as pernas, vomitávamos e ríamos... ávidos - e de
calçados amarrados - pelo banheiro, pela cama,
pelo amanhã das águas, do silêncio e do novo.

Há pouco e aos poucos, sempre cada vez mais, traços
vão decantando jardins bifurcados. Um
nó esquecido pelos dedos desatentos de
alguma Moira, o tear dessas vidas
que de tão próximas nunca mais se tocarão.

Já não nos encontramos mais no final da escola,
nem compramos mais pingas a 1,99, e é
inútil dizer se temos alguma esperança ainda.
O clube de sexta-feira foi a única e a última.
Temos é verdade mais severidade nos olhos,
um pulso mais rígido e um pouco mais de atenção
aos gestos miúdos da vida, seja à calvice ou às
contas de luz. E há, profundamente, dois ou três
gestos proibidos, para sempre esquecidos. Jeitos
toscos de queimar a carne, marcar o rosto.
Vamos assim ganhando horizontes, abandonando
o olhar distantes com que nos tocámos e ríamos
para deixar este, um tanto inclinado, baço, sério
e afogado nas lembranças daquilo que não deveria
ter sido feito.

sábado, 17 de março de 2012

Take It Or Leave It, The Strokes



Leave me alone
I'm in control
I'm in control
And girls lie too much
And boys act too tough
Enough is enough...

MAURICE BLANCHOT

"A parte de Artaud lhe é própria. O que ele diz é de uma intensidade que não deveríamos suportar. Aqui fala uma dor que recusa toda profundidade, toda ilusão e toda esperança, mas que, nessa recusa, oferece ao pensamento 'o éter de um novo espaço'. Quando lemos essas páginas, aprendemos o que não conseguimos saber: que o fato de pensar só pode ser perturbador ; que aquilo que existe para ser pensado é, no pensamento, o que dele se afasta, e nele se exaure inesgotavelmente; que sofrer e pensar estão ligados de uma maneira secreta, pois se o sofrimento, quando se torna extremo, é tal que destrói o poder de sofrer, destruindo sempre à frente dele mesmo, no tempo, o tempo em que ele poderia ser retomado e acabado como sofrimento, o mesmo acontece, talvez, com o pensamento. Estranhas relações. Será que o extremo pensamento e o extremo sofrimento abrem o mesmo horizonte? Será que sofrer e, finalmente, pensar?"

- Maurice Blanchot in O livro por vir, pp. 55-56.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012


Bathysphere* 

When I was seven, I told my mother:
'Take me to the bay and put me on a ship'.

Silver swordfish of electric
I can feel a dream down here.

If the water should cut my mind,
If the water should cut my life,
If the water should cut my mind,
set me free.

I don't care,
I want to live in a bathysphere.

When I was seven, my father said to me:
'But you can't swim',
and I never dreamed of the sea again.

If the water should cut my life,
If the water should cut my line,
If the water should cut my mind,
set me free.

I don't care,
I want to live in a bathysphere.


* letra de Bill Callahan.
...Quem tem consciência para ter coragem
Quem tem a força de saber que existe
E no centro da própria engrenagem
Inventa a contra-mola que resiste

Quem não vacila mesmo derrotado
Quem já perdido nunca desespera
E envolto em tempestade decepado

Entre os dentes segura a primavera...